A ânsia de ter e o tédio de possuir
- Rafael Maisonnette de Araujo
- 3 de set. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 22 de set. de 2025
Desde os tempos mais remotos, o ser humano se vê diante de um dilema existencial: a busca incessante por algo que falta e a sensação de vazio que muitas vezes surge logo após a conquista. Nos primórdios, a caça e a pesca eram voltadas para a sobrevivência. O alimento obtido garantia a continuidade da vida. Com o passar do tempo, porém, o ato de conquistar a “presa” foi ganhando outro significado: mais do que garantir a subsistência, tornou-se demonstração de poder, prestígio e domínio.
Esse movimento histórico ajuda a compreender algo que ainda hoje atravessa nossa existência. A conquista de um objeto desejado não se encerra em sua utilidade prática, mas carrega o peso simbólico de satisfazer um vazio interior. Contudo, a experiência mostra que o prazer da posse é efêmero: logo que o objeto é obtido, instala-se o tédio, e a ânsia de desejar algo novo se manifesta.
A psicanálise lança luz sobre esse paradoxo. Freud já indicava que a pulsão humana nunca encontra satisfação plena, pois sua meta está sempre em movimento. O sujeito busca, mas o objeto nunca preenche inteiramente a falta que o constitui. Lacan aprofundou essa ideia ao afirmar que o desejo humano é marcado por uma ausência estrutural: o que se busca, na verdade, não é o objeto em si, mas o que ele representa. Uma promessa de completude que jamais se cumpre.

Na sociedade contemporânea, essa lógica é amplificada. O consumo não se limita a atender necessidades básicas; ele se tornou um campo simbólico onde se busca identidade, reconhecimento e pertencimento. Redes sociais e publicidade reforçam essa dinâmica, oferecendo constantemente novos objetos de desejo, que, uma vez conquistados, rapidamente perdem o brilho. O resultado é um ciclo de insatisfação permanente: desejar, conquistar, entediar-se, desejar de novo.
No espaço clínico, esse dilema se revela com frequência. Pacientes relatam possuir muito, mas ainda assim sentem que “falta algo”. Essa sensação de vazio não decorre da ausência de bens ou conquistas, mas da própria condição humana de estar em falta. O trabalho psicológico, nesse sentido, não é eliminar essa ausência. O que seria impossível, mas ajudar o sujeito a simbolizá-la, a conviver com ela e a encontrar novos modos de dar sentido à sua existência.
Reconhecer que o desejo é motor da vida e que a falta é constitutiva pode transformar a forma como encaramos nossas escolhas. Em vez de buscar incessantemente a próxima “presa”, talvez possamos aprender a dar novo significado ao que já temos e, sobretudo, ao que não pode ser plenamente possuído. Afinal, é justamente nessa tensão entre a ânsia de ter e o tédio de possuir que se desenha a experiência humana.
Rafael Maisonnette de Araujo
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